terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um cão

Eu sou o cão
Vago sem rumo ou direção
Minha dona joga os ossos
Os cato no chão

Lato pouco
Não mordo
Ando pelos becos, escondido das ruas
Escondo-me nas casas dos bairros pobres

Minha dona vive a me caçar
Sem comida de primeira
Ela aperta muito a coleira
Corro, sou um cão

Quando me flagram, ponho o rabo entre as pernas
Depois balanço para agradar
Quase não ladro
Cato ossos onde me escondo

Não cuido da casa
Fujo sempre
A dona a me caçar
Corro como posso

Quisera ter em minha própria casa
Um bom punhado de ração
Mas eu me escondo
Cato tudo pelo chão

Thomás Sôlha

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O sushiman e o samurai

Levantam-se junto com o sol nascente
Escolhendo o peixe e a espada
Lâmina bem treinada
Corte preciso e rente

A lâmina é sempre forjada quente
Um mira a presa pescada
Outro, com o arco, cavalga na estrada
No convívio escondem técnicas, sem soberba aparente

O samurai sonha ser o melhor guardião
O sushiman prepara a ova de esturjão
Faz sashimi do salmão

Os dois se dedicam de coração
Mais fácil filetar gente, ou peixe?
Diariamente utilizam a faca
Com finalidades diferentes

Thomás Sôlha

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Complicado

Quem é o bicho mais pidão,
O homem, o rato ou o cão?
Um pega e rouba
Outro, pega do lixo
Outro pede com o olhar.

Não sei quem pede
Nem quem pega
Ou toma e esconde de mim
Só para si, maldito

Tão rato e tão cão conseguem ser os homens e mulheres vis
Mas não rouba por maldade o rato
E o cão não pede para acumular

O animal bípede sempre se supera na escrotisse
É um pouco complicado

Thomás Sôlha

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Não

O homem que não sabe dizer não, está morto
Jaz uma alma putrefa
Dentro de um corpo roto
Catando cinzas e latas
Quebrando e comendo pedra
Não diz não
Está morto

Ele não é
Ao mesmo tempo é um mulambo
Perambulando com a boca queimada
Sem amor
Nada

Thomás Sôlha

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O pão em poema

O mel e a melodia
O pão e a poesia
O pão de cada dia
Mesa vazia

Mesa farta para uns
Pão em falta para muitos

Pão de mel é luxo
Mel puro é difícil
Mais difícil para as abelhas
Que roubam o néctar das flores do trigo

Na adolescência sorvi o néctar das Flores do Mal
Mas Charles não ligou

Amassa o trigo para formar a massa
A massa do pão, na mão
Fim do pãoema

Thomás Sôlha

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O homem do prédio

Mesmo que não faça nada
Todo mês já vem uma certeira
Além das outras, é claro, além

Procura um lugar na varanda
Tenta ver televisão de banda
Sempre alguém olhando
Algum escroto, espiando

Foi-se o tempo de lindos quintais
Belos jardins
Resta o canteirinho na janela
Nem toda ela

O homem do prédio se espreme
Entre contas, contos e poucos descontos
No final do dia encontra sua esposa
É ao menos um bom começo

Thomás Sôlha

Quem sou o eu que fui amor?

Aquelas rosas que eu comprei
A vermelha é linda
A branca secou
A laranja morreu
Ela nunca olhou.

Já cheirou meu hálito
Para saber se menti
Se havia fumado, ou bebido escondido
As rosas ela não cheirou

Dei de beber a elas
Quase me perguntaram porque tinham vindo
Minha flor nunca as olhou
Nem água botou, mas brotaram mesmo assim as rosas

as reguei, olhei, o sol iluminou
Os vizinhos viram
A faxineira viu
Ela nunca olhou as rosas, nem o bonsai ou as bromélias

Sabe de cor o extrato do banco
Quanto entra e com o que sai
Olhai as rosas do vazo
Transborda coração raso

Thomás Sôlha

O coração cordial

Bebe, fuma, cheira, passa
Corre o campo belo e limpo
Sangue roxo e vermelho
Bate-bate sem parar

É de dia, lê jornal
No domingo passa mal
Sangue limpo, campo vermelho
Bate, bate sem parar.

Flores lindas e o espelho
Corre rápido o campo lindo
Sem parar, indo e vindo
Bate-bate sem parar

Vem de noite já cansado
Não fica em casa sossegado
Todo dia um novo corre
Bate-bate a se zangar
Bate, bate sem parar

Sem tempero ou agonia
O relógio bate à meia noite
O coração, bem cordial
Bate-bate sem parar

Thomás Sôlha

O fracassado

O fracassado se deu bem
Não foi convidado para a viagem
O presente, ficou sem
Mas lutou com apoio e força
O fracassado se deu bem

Teve mais crítica do que apoio
Levou um murro, mil, cem
Ergueu muros e paredes
Tentaram lhe derrubar
Empurraram e riram
Fracassado quem?

Thomás Sôlha

Na penumbra da noite

Na penumbra da noite
Vejo três escolhas
Ramos, gravetos e folhas
Cozinhe-os

Corte mirepoix
Faça um bouquet garni
Um fundo, um caldo (...)
para esquentar a noite
Vejo três escolhas
(...)

Thomás Sôlha

Inconstância

São três passos para a escada
Quem sabe, três dias de estada
Prefiro uma vida bem vivida
Não uma noite mal passada

Na estrada, até não ir é um caminho
Só a folha cai sem escolha
E o pé de limão siciliano aromatiza
Um aroma tão romântico

São três passos no caminho
Degraus são tantos, como folhas, como escolhas.

Uma mulher vai bem acompanhada
Um velho vai sozinho
Cai uma folhinha do limoeiro
Outra cai do caderno, caminhando para o chão
Para na minha mão e vira poesia
Virá outra página e outra escolha.

Thomás Sôlha

Medo

Há um guerreiro no fundo do lago
Existe um lago em cada um
Não sei se é pelo peso da armadura, por medo, ou pela densidade do sangue(...)
mas o guerreiro não nada

Pode ser mais forte do que a água
Tira a armadura guerreiro
Faz correr o sangue
O rosto já está lavado

Ninguém distinguirá lágrimas
Guerreiro, coragem!

Bebe o lago e o rio
Aceita meu desafio, mas não se afogue por medo.


Thomás Sôlha

Sejam bem vindos.

Este é um canto para quem gosta de poesia
poesia sem compromisso com métrica
poesia porque é gostoso escrever
porque sim
porque sia
porquema

Thomás Sôlha