segunda-feira, 30 de maio de 2016

O tempo

O tempo

Mais pesado que a própria Terra
Pai dos pais e mãe da vida
Testemunho rápido de toda guerra
Mágico construidor de tudo

Tem o passado como escudo
E nunca está constante
É sem dúvida o mais gigante
E nem percebes, já levou tudo

Somos suas testumunhas
Passageiras, ridículas
E como tudo que também virá
Figuramos entre suas vítimas

Não o julgues cruel
Ele não te rouba todo o brilho
E permite num instante fugaz
Que contemples o sorriso do teu filho

Nada tarda pra ele
Nada é dele, que tudo leva
Não fica luz nem treva
Já vem vindo o tempo

Já vai indo e já foi
O antes vira depois
E o que virá, dirá o tempo
Dita cada momento

Monstro implacável
Boca maldita
Senhor e senhora
Do início e do fim

Thomás Sôlha 20/04/2016

Kharma

Kharma

Eu sou o ódio  que alimenta o seu amor
O fogo que acende o seu cigarro
O câncer que te matará um dia
Mas hoje sou sua pura alegria

Serei a droga que te consome por dentro
Serei também, no dia frio, o seu alento
Sou o papel que enrola o baseado
A garrafa quebrada no caminho

E preservo da garrafa o vinho
E te faço menos sóbrio
Sou o amor que te alimenta o ódio
Já fui vampiro e te roubei o sangue

Já te chupei na noite quente, incômoda
Tentas dormir, faço ranger a cômoda
E quando te sintas por fim, gente
Te levarei pra terra, cuspirei teus dentes

Sou a praga da sua família
A solidão que vai te derrubar
Cansado, quase morto
Trago o seu último suspiro

Se tu morresses por um tiro
Eu seria a pólvora e o revolver
E tanto sofras e te arrependas
Sou o melhor final que podereis ter


Sou Raul Seixas invocando versos
E à minha sombra, és um pobre coelho
E cantas roubados os meus versos
Que rapidamente vistes no espelho

Sou o fim do sol a queimar no céu
No dia que decidires ser planta
Mas posso ser a chuva tranquila
Como numa manhã cheirosa e mansa

Eu sou o bem e o mal
Sou o choro na cama coberta de placenta
Mas quando abres a porta
Eu sou a chuva que venta

Seria também um deus
Se você não fosse o mau
Seria todo teu
Se eu fosse real

Mas eu assombro os seus sonhos
Sou carnívoro e bizonho
Sou seu vizinho
Estou sob sua cama

Sou o medo de quem não ama
O valor do desonrado
O pranto vertido em lama
E os pregos no crucificado

Sou sem valor e sem cifra
Ninguém me decifra ou me come
Sou uma besta sem nome
A vagar pelo seu passado

Sou no bosque o veado
E na mão do caçador a flecha
Já disse, sou uma besta
A errar entra os homens

Quando sopra o vento mais pesado
E você já não aguenta o que vier
Serei a sensualidade balançando
Nos morenos cabelos de uma mulher

Mas sou também seu medo mais primitivo
Seu amigo indesejável
Um tormento quente e frio
Sou o vazio que te espera

Eu não sou a primavera
Nenhuma estação
Sou sua distração
No dia em que fores morto

Sou as flores azuis que te velam
Duma morte que eu mesmo causei
E não chegarás a ficar velha
A tua história eu queimei

Thomás Sôlha 13/04/2016


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um cão

Eu sou o cão
Vago sem rumo ou direção
Minha dona joga os ossos
Os cato no chão

Lato pouco
Não mordo
Ando pelos becos, escondido das ruas
Escondo-me nas casas dos bairros pobres

Minha dona vive a me caçar
Sem comida de primeira
Ela aperta muito a coleira
Corro, sou um cão

Quando me flagram, ponho o rabo entre as pernas
Depois balanço para agradar
Quase não ladro
Cato ossos onde me escondo

Não cuido da casa
Fujo sempre
A dona a me caçar
Corro como posso

Quisera ter em minha própria casa
Um bom punhado de ração
Mas eu me escondo
Cato tudo pelo chão

Thomás Sôlha

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O sushiman e o samurai

Levantam-se junto com o sol nascente
Escolhendo o peixe e a espada
Lâmina bem treinada
Corte preciso e rente

A lâmina é sempre forjada quente
Um mira a presa pescada
Outro, com o arco, cavalga na estrada
No convívio escondem técnicas, sem soberba aparente

O samurai sonha ser o melhor guardião
O sushiman prepara a ova de esturjão
Faz sashimi do salmão

Os dois se dedicam de coração
Mais fácil filetar gente, ou peixe?
Diariamente utilizam a faca
Com finalidades diferentes

Thomás Sôlha

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Complicado

Quem é o bicho mais pidão,
O homem, o rato ou o cão?
Um pega e rouba
Outro, pega do lixo
Outro pede com o olhar.

Não sei quem pede
Nem quem pega
Ou toma e esconde de mim
Só para si, maldito

Tão rato e tão cão conseguem ser os homens e mulheres vis
Mas não rouba por maldade o rato
E o cão não pede para acumular

O animal bípede sempre se supera na escrotisse
É um pouco complicado

Thomás Sôlha

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Não

O homem que não sabe dizer não, está morto
Jaz uma alma putrefa
Dentro de um corpo roto
Catando cinzas e latas
Quebrando e comendo pedra
Não diz não
Está morto

Ele não é
Ao mesmo tempo é um mulambo
Perambulando com a boca queimada
Sem amor
Nada

Thomás Sôlha

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O pão em poema

O mel e a melodia
O pão e a poesia
O pão de cada dia
Mesa vazia

Mesa farta para uns
Pão em falta para muitos

Pão de mel é luxo
Mel puro é difícil
Mais difícil para as abelhas
Que roubam o néctar das flores do trigo

Na adolescência sorvi o néctar das Flores do Mal
Mas Charles não ligou

Amassa o trigo para formar a massa
A massa do pão, na mão
Fim do pãoema

Thomás Sôlha