segunda-feira, 30 de maio de 2016

Kharma

Kharma

Eu sou o ódio  que alimenta o seu amor
O fogo que acende o seu cigarro
O câncer que te matará um dia
Mas hoje sou sua pura alegria

Serei a droga que te consome por dentro
Serei também, no dia frio, o seu alento
Sou o papel que enrola o baseado
A garrafa quebrada no caminho

E preservo da garrafa o vinho
E te faço menos sóbrio
Sou o amor que te alimenta o ódio
Já fui vampiro e te roubei o sangue

Já te chupei na noite quente, incômoda
Tentas dormir, faço ranger a cômoda
E quando te sintas por fim, gente
Te levarei pra terra, cuspirei teus dentes

Sou a praga da sua família
A solidão que vai te derrubar
Cansado, quase morto
Trago o seu último suspiro

Se tu morresses por um tiro
Eu seria a pólvora e o revolver
E tanto sofras e te arrependas
Sou o melhor final que podereis ter


Sou Raul Seixas invocando versos
E à minha sombra, és um pobre coelho
E cantas roubados os meus versos
Que rapidamente vistes no espelho

Sou o fim do sol a queimar no céu
No dia que decidires ser planta
Mas posso ser a chuva tranquila
Como numa manhã cheirosa e mansa

Eu sou o bem e o mal
Sou o choro na cama coberta de placenta
Mas quando abres a porta
Eu sou a chuva que venta

Seria também um deus
Se você não fosse o mau
Seria todo teu
Se eu fosse real

Mas eu assombro os seus sonhos
Sou carnívoro e bizonho
Sou seu vizinho
Estou sob sua cama

Sou o medo de quem não ama
O valor do desonrado
O pranto vertido em lama
E os pregos no crucificado

Sou sem valor e sem cifra
Ninguém me decifra ou me come
Sou uma besta sem nome
A vagar pelo seu passado

Sou no bosque o veado
E na mão do caçador a flecha
Já disse, sou uma besta
A errar entra os homens

Quando sopra o vento mais pesado
E você já não aguenta o que vier
Serei a sensualidade balançando
Nos morenos cabelos de uma mulher

Mas sou também seu medo mais primitivo
Seu amigo indesejável
Um tormento quente e frio
Sou o vazio que te espera

Eu não sou a primavera
Nenhuma estação
Sou sua distração
No dia em que fores morto

Sou as flores azuis que te velam
Duma morte que eu mesmo causei
E não chegarás a ficar velha
A tua história eu queimei

Thomás Sôlha 13/04/2016


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